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Memória do Judiciário: prêmio do CNJ destaca dívida histórica com escravizados e quilombolas

O resgate da história de vida de grupos historicamente invisibilizados e marginalizados, como quilombolas e escravizados, ganhou destaque na entrega do Prêmio CNJ Memória do Poder Judiciário. Os vencedores da sexta edição do prêmio foram conhecidos na manhã desta sexta-feira (8/5), durante o 6º Encontro Nacional de Memória do Poder Judiciário (Enam). O evento ocorreu na Escola Judicial do Pará (EJPA), na capital do estado paraense. O vencedor da subcategoria especial “Escravidão e Liberdade: passado e presente”, criada nesta edição dentro da categoria Patrimônio Cultural Museológico, foi o projeto “Derradeiras vontades: testamentos dos ex-escravizados no Maranhão (1765-1831)”, desenvolvido pelo Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA). A premiação é organizada em cinco categorias. A inclusão do novo tema procurou dar maior pulgação a documentos e processos, contidos nos arquivos do Poder Judiciário, relacionados à escravidão, a comunidades quilombolas e ao combate ao trabalho escravo, ao tráfico de pessoas, ao racismo e a crimes relacionados e defesa de direitos humanos. O projeto vencedor do Museu Des. Lauro de Berredo Martins, do TJMA, realizou a transcrição para o português contemporâneo de testamentos de pessoas anteriormente escravizadas no Maranhão, resultando na publicação da obra. O livro reúne 50 narrativas em primeira pessoa, extraídas de documentos manuscritos preservados pela instituição, revelando trajetórias historicamente invisibilizadas. Os verbetes foram estruturados para reunir informações essenciais, como identificação dos testadores, vínculos familiares, contextos de vida e morte, patrimônio, disposições de última vontade, alforrias e relações afetivas, permitindo a reconstrução de aspectos sociais e humanos relevantes. “A obra contribui para o reconhecimento da presença negra no Maranhão colonial e para o debate contemporâneo sobre identidade, ancestralidade e justiça social”, registra o resumo do trabalho. Ainda nesta subcategoria especial, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) recebeu menção honrosa pelo projeto “Arquivos Judiciais da Escravidão no Vale do Paraíba Fluminense”. A iniciativa contribui para preservação e difusão de processos judiciais relacionados à escravidão e à liberdade de pessoas negras no Brasil do século XIX, localizados em arquivos de municípios do Vale do Paraíba fluminense e no próprio TJRJ. O trabalho foi motivado pela constatação, por parte do TJRJ e do Ministério Público Federal, de que parcela significativa dessa documentação histórica encontra-se sob guarda de prefeituras, em condições heterogêneas de preservação e organização, o que dificulta o acesso e compromete a memória do período escravista. Outras ações premiadas Temas semelhantes conquistaram o primeiro lugar, inclusive com empate, na Categoria II, Patrimônio Cultural Arquivístico. Os ganhadores foram o projeto “Da escravidão à liberdade: a história de justiça social da comunidade Kalunga revelada nos arquivos do Tribunal de Justiça de Goiás”, desenvolvido por essa Corte, e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) com o trabalho “Sistematização, descrição e acesso da documentação do período escravista mineiro: o “Guia de fontes documentais do Arquivo Permanente do TJMG – História Negra: escravidão, liberdades, resistências e violências”. O documento resgata a memória negra por meio da sistematização, descrição e ampliação do acesso à documentação do período escravista mineiro. O primeiro volume reúne cerca de 600 documentos do século XIX, provenientes de 24 comarcas, evidenciando a atuação de pessoas escravizadas como sujeitos ativos na busca por liberdade, resistência e denúncia de violências. Já a pesquisa realizada pelo TJGO traz a transição entre registros da escravidão e ações contemporâneas de reparação histórica promovidas pela Corte de Goiás para fortalecer a memória institucional, a transparência e a responsabilidade social. O trabalho destaca a produção de conteúdos institucionais e a realização de entrevistas e registros audiovisuais de história oral na comunidade Kalunga, que reforçam identidade, pertencimento e reconhecimento de direitos. Como resultados, destacam-se o diagnóstico das condições dos acervos, o aprimoramento das práticas de preservação e acesso, e a ampliação da difusão da memória histórica da escravidão na região. Ao final, foram apresentadas recomendações às instituições envolvidas, constantes do relatório final, com vistas ao fortalecimento das políticas de gestão, preservação e acesso aos acervos arquivísticos. Participação expressiva Presente na entrega do prêmio, a coordenadora do Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário (Proname) e juíza auxiliar da Presidência do CNJ, Ana Lúcia Aguiar, destacou a participação expressiva de candidaturas à premiação. “Recebemos cerca de 100 inscrições. Além da análise da comissão avaliadora, assim como nos anos anteriores, tivemos o auxílio de um grupo de especialistas: arquivistas, bibliotecários e historiadores”, ressaltou. Ela aproveitou também para parabenizar todos os participantes. “Foi uma disputa apertada, parabenizo não só os premiados, mas todos aqueles que desenvolveram nos seus tribunais projetos seja ligada à gestão documental, museus, arquitetura, à memória do Poder Judiciário”, salientou. A entrega da premiação também contou com a presença dos integrantes do Proname, a juíza do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-4) Anita Job Lübbe e o juiz do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) Carlos Alexandre Böttcher. Demais categorias A Categoria I – Patrimônio Cultural Arquitetônico foi conquistada pelo Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL) com o projeto “Entre as memórias e histórias guardadas: o imponente Palácio da Justiça de Alagoas”. O trabalho destaca a importância histórica, arquitetônica e institucional da antiga sede do tribunal alagoano, que atualmente abriga o Centro de Cultura e Memória do TJAL. Já Categoria III – Patrimônio Cultural Bibliográfico teve como vencedor o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), com o E-book “Protagonismo Feminino do TRF3”. O trabalho traz visibilidade à trajetória de 37 magistradas, suas decisões e contribuições, fortalecendo a cidadania e ampliando o debate sobre igualdade de gênero. Em 2024, esse tribunal, alcançou o maior percentual de desembargadoras entre os TRFs (28,6%). Na Categoria IV – Patrimônio Cultural Museológico destacou-se a exposição “Ao correr da pena: a escrita no mundo e no universo judicial”. O trabalho valoriza a escrita como tecnologia da memória, instrumento de organização do Direito e elemento estruturante da história do Poder Judiciário brasileiro. A iniciativa foi desenvolvida conjuntamente pelos Tribunais de Justiça de Minas Gerais, Alagoas, Pernambuco e Maranhão. Por fim, na Categoria V – Trabalho Acadêmico, o vencedor foi Jefferson  Nascimento Albino, com o projeto “Entre mãos, páginas e sentenças: usos, agenciamentos e disputas em torno dos livros mágico-religiosos no rio de janeiro (séculos XIX–XX)”. A tese investiga a circulação de livros mágico-religiosos no Rio de Janeiro, entre o século XIX e o início do século XX. O acadêmico analisa como esses impressos atravessaram práticas populares de cura, negociação e sobrevivência, ao mesmo tempo em que foram incorporados aos mecanismos repressivos do Estado. Com base na análise de processos-crime, inquéritos, habeas corpus, recursos, periódicos e do circuito editorial, a pesquisa demonstra que tais livros atuaram como operadores de disputa, mobilizando classificações raciais, sanitárias e jurídicas. Memória do Judiciário O Prêmio CNJ da Memória do Poder Judiciário integra a programação do 6º ENAM, realizado em Belém do Pará, de 5 a 9 de maio de 2026, com o tema “Amazônia, Direitos Humanos e os desafios da Agenda 2030”. A programação se encerra neste sábado, com a caminhada Paid’égua da Memória, no Parque do Utinga, seguida de visita ao Memorial Amazônico “Verônica Tembé”. Organizado pelo TJPA, TRT-8 e TRE-PA, com apoio do TRF-1, o encontro reúne magistrados, servidores e sociedade para fortalecer o diálogo entre memória, justiça e sustentabilidade, destacando o papel dos acervos judiciais na preservação da memória institucional, na promoção dos direitos humanos e na compreensão de questões históricas, sociais e ambientais. Ao final do evento sediado no Pará, a coordenadora do Proname anunciou que a capital do Paraná, Curitiba, foi a cidade escolhida para sediar a edição de 2027 do evento. Texto: Margareth Lourenço Edição: Sarah Barros Agência CNJ de Notícias   Número de visualizações: 1
08/05/2026 (00:00)
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